terça-feira, 2 de março de 2010

CARIRI

VIVA BALDUINO E QUINTANS! VIVA O CARIRI!

Eilzo Matos

Contrafeito, acelerei a camionete e ganhei a estrada. Custa-me au-sentar-me do ramerrão rural a que me habituei nos últimos anos. E a idade ajuda. O que fazer na cidade – reflito -, se já não namoro, não jogo, não fumo e não bebo (embora dormitem no fundo da lembrança tais propósitos) – ocupações estimulantes na vida de um homem, cuja trajetória ao longo da existência cumpriu tais desideratos que a sociedade imprime a tempera-mentos como o meu! Da morada na rua, seguiria para a capital. Ali o cenário de uma vida passada, de amizades antigas, de compromissos e vivência que construíram um mundo à parte do de hoje. Mas que sobrevive insolitamente.

Eleição na APL para preencher Cadeira, é o motivo de minha viagem. Um acontecimento! Raciocino, e como era de bom tom exclamar, ignorando se o fazem ainda, faço-o agora. Hurra! Impossível deixar de relatar encontros breves e longas conversas com interlocutores além dos acadêmicos, que privilegiaram tais momentos. Começo com o erudito Evandro Nóbrega, poliglota, criador de alguns dos mais estimulantes textos que conheci: “A Glândula Pineal do Urubu”, cuja riqueza picaresca de situações narradas e descritas, confirmam a sua fama. Nada de abafado e monódico cantochão medievalista, mas de arrebatados e impolutos cavaleiros, protegidos pela magia de encantadores amigos e secretos – assim o Conde Alexandre e o seu séquito, dominando o século XX, definindo nobiliarquia. E Evandro seu criador, nada deve aos pícaros ibé-ricos e outros notáveis brasileiros nordestinos, filiados ao ramo. Tenho em mãos uma antologia patoense, com a sua poesia num lirismo sertanejo esquisitamente erudito e metropolitano. Material para estudo e reflexão.

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A nossa Paraíba – orgulha-me dizê-lo – destaca-se no ambiente cultural e político nacional. Desde tempos pretéritos com Brandônio e Alviano praticando elevados diálogos sobre riquezas e grandezas das terras paraibanas. E com José Peregrino arcabuzado em 1817. Depois com Au-gusto dos Anjos e José Lins do Rego. Pois bem. O tempo na marcha apocalíptica ou marxista de sua evolução, como alguns pretendem, caminha para o coroamento na destruição ou no pleno alcance da razão. Acredito na última hipótese. Não trato, evidentemente, de um determinismo social que nada mais é do que uma fraude, mas da evolução dialética da natureza e da sociedade.

Duas noticias alvissareiras, que me chegaram através de blogs locais, despertaram o meu entusiasmo e corroboram no acerto de minhas afir-mações e da minha alegria :

- O museólogo Balduino Lélis cria salão e exibe riquezas minerais e culturais da Paraíba;

- O deputado paraibano Assis Quintans apresenta projeto voltado para a ética e cidadania.

É preciso reconhecer e exclamar como sincero entusiasmo: Viva o Cariri! Cariri do clima ameno, refinado nos costumes e na garra de sua gente: fazendeiros, vaqueiros, poetas, compositores, políticos, romancistas, sociólogos, juristas, empresários e tudo mais que possa caracterizar uma postura humana voltada para o trabalho e a construção de uma sociedade exemplar.

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Balduino Lélis todos o conhecemos pela sua dedicação à pesquisa, à realização de eventos e criação de instituições voltadas para o conhe-cimento da realidade paraibana. Através de publicações, na concentração de esforços para a realização de encontros e seminários, ele torna a Paraíba mais conhecida nas suas potencialidades. Assim criou a Universidade Leiga, Popular e o país conheceu graças ao patriotismo e coragem deste filho de Taperoá, que o Nordeste não é a terra da fome, mas da fartura.

Integrando numerosa comitiva de representações do Governo do Estado, do IHGP, da APL, Associação Comercial, presenciei a tradição desfilando em colunas de altivos cavaleiros vestindo capas brasonadas, episódios teatrais e satíricos de mamulengos, aplaudidos pela massa presente. O que pessoalmente me assombrou naquele ocasião, foi a variedade do cardápio servido no café, no almoço e no jantar com mais de duzentos pratos preparados com produtos da terra, catalogados, começando com a batata, o umbu, a farinha, o beiju, o fubá, a galinha, o arroz, o milho, o feijão, o peba, o peixe, o caju, a pinha, a goiaba, o guiné, o bode, o boi, e vai por aí. Uma lição para os técnicos do governo que gastam muito dinheiro para falar em fome, em miséria.

Quando muitos continuam a lamentar a pobreza e a situação modesta da Paraíba, como produtora de polos de atividades, eles não as definem, to-davia. Enquanto isso, todos sabem do Polo Mineral no Rio Grande do Norte, Açucareiro em Alagoas, Portuário em Pernambuco, Turístico no Ceará, Petrolífero na Baía, etc, etc. Balduino reage, não se deixa convencer e realiza mostra das grandezas minerais, industriais e Culturais da Paraíba. Outra lição oportuna aos burocratas e tecnocratas nos seus projetos que fogem da realidade, por isso mesmo, jamais implementados.

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Pois em boa hora falo no deputado Francisco de Assis Quintans: homem público, engenheiro de mérito, conhecedor em profundidade e especialização, da problemática agrícola e urbana da nossa Paraíba. Fir-mado na vivência e estudo de particularidades da vida local ele revela a grande falha no trato da população, que tem inviabilizado planos gover-namentais. Nada mais importante que a educação.

Presenciei um adolescente entre dez e doze anos, mal vestido, entrar na igreja matriz de Sousa, onde se realizava uma solene missa de finados. Acercava-se o garoto de um e de outro pedia esmola, pouco lhe importava onde estava. Olhava para um lado e para outro, sentando-se por fim entre as filas de bancos, deitando-se em seguida e ficando a admirar as pinturas do forro. Indiferente aos olhares de censura, ele na realidade, como a maioria dos filhos do povo nada sabia de qualquer religião. Menos ainda sobre a solenidade de alguns ambientes, exigindo respeito e impondo compor- tamento, o que pouco é levado em conta.

A cena insólita mostrava a necessidade de introdução no currículo das escolas primárias, ensinamento de noções sobre família, sociedade, pátria, direitos e deveres dos cidadãos. Isto logo nos primeiros anos porque depois dos quinze a idade nada mais aceita, dominada que está a mente criada sem noção desses valores, entregue á verdadeira libertinagem da vida na rua, nas festividades ditas populares.

Parabéns ao deputado Quintans, pela sua visão de homem público, pela significação e pelo alcance de seu projeto, como está abaixo justificado:

“A sociedade atual necessita de uma educação do aluno como um todo, um ser humano completo que deve ser trabalhado em diversas áreas e não apenas a cognitiva. A escola deve formar pessoas preparadas para o mundo e não apenas para provas, ou seja, a escola deve também ter em seu planejamento um ensino voltado para educação em valores éticos”.

Viva Quintans e Balduino!

……. De volta com a pouca chuva. Março de 2010 ……

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